Atue em prol da Netflix – Como é a política de viagens da Netflix e o que podemos aprender com isto

Conheça como a Netflix restringiu a sua política de viagens e despesas a apenas uma linha: "Atue em prol da Netflix", e como esta liberdade com responsabilidade funciona para o crescimento da empresa.

A política de viagens da Netflix é muito simples: ‘Atue em prol da Netflix’.

No interessante livro a “A Regra é Não Ter Regras: A Netflix e a Cultura da Reinvenção”, Reed Hastings, founder e CEO da gigante americana de streaming, compartilha como funciona a cultura e a gestão da Netflix, e dá uma atenção especial à política de viagens da empresa.

A cultura Netflix é famosa, sincera e inspira milhares de outras empresas diariamente. Reza a lenda que Sheryl Sandberg, executiva famosa pela sua posição de liderança no Facebook, “afirmou que o código de cultura da Netflix é um dos documentos mais importantes já produzidos no Vale do Silício”.

Sobre o livro

Antes de falar especificamente sobre política de viagens, vale fazer um pequeno resumo sobre o livro. Ele é uma aula de como uma cultura focada em talentos, forte disciplina de feedbacks contínuos e eliminação de controles e burocracias, pode entregar uma agilidade para a empresa e mantê-la no trilho de inovação contínua.

Vale muito a pena a leitura, a compressão e aplicação de valiosas dicas dadas por Reed Hastings e Erin Meyer.

Mas vamos lá, ao assunto principal deste post, sobre uma política de viagens tão simples e efetiva.

A trajetória para uma política de viagens tão “simples”

No capítulo “Elimine Aprovações de Viagens e Despesas”, Hastings começa contando uma história de sua empresa anterior, quando um dos funcionários entrou na sala dele esmurrando a porta, bravo e dizendo:

“Nosso manual do funcionário afirmava que, ao visitar um cliente, você pode alugar um carro ou pegar um táxi, mas não ambos.

Eu aluguei um carro! O escritório ficava a duas horas de distância! Um táxi teria custado uma fortuna. Era a opção mais correta.

Houve um evento noturno com vários clientes a quinze minutos do meu hotel, eu sabia que todos beberíamos, então peguei umm táxi. Agora o departamento financeiro não quer reembolsar os 15 dólares que paguei de táxi porque eu tinha um carro alugado“.

Meses depois, este funcionário se demitiu com o seguinte feedback:

“Quando vi como a equipe sênior gasta seu tempo, perdi a confiança na empresa”.

Hastings reconhece que o funcionário tinha razão e que este aprendizado o ensinou a nunca mais querer ter este tipo de discussão em sua próxima empresa: Netflix.

Hastings ainda reafirma:

“…Além do mais, não queria que nossos funcionários talentosos achassem que regras estúpidas os impediam de usar o cérebro para fazer o que era melhor. Essa era uma maneira evidente de matar as vibrações criativas que contribuem para um ambiente de trabalho inovador.”

Este é a principal razão para a Netflix eliminar os controles. Em uma empresa onde é necessário bastante criatividade, regras em excesso que limitam e frustram os colaboradores podem ter um efeito muito devastador.

Tive a oportunidade de trabalhar em uma empresa onde o time de marketing, além de ter que utilizar um uniforme (que todos tinham vergonha de usar),  tinham que bater cartão às 08:00 e sair às 17:45, registrar todas as atividades, e qualquer equívoco do colaborador era fortemente punido.

Desnecessário dizer que este micro-gerenciamento expulsava os talentos e limitava qualquer iniciativa criativa dos colaboradores e, consequentemente, da empresa. O  turnover era tão alto, que chegou a ter 3 gerentes de marketing em apenas 12 meses.

Definitivamente, colaboradores criativos e inteligentes abominam burocracias em excesso e micro-gerenciamento.

Voltando ao exemplo da Netflix, a principal preocupação da empresa para poder eliminar os controles, é deixar claro e alinhado muito bem contexto.

“… definir um contexto bem transparente para ajudar os funcionários a entenderem como gastar o dinheiro da empresa com sabedoria” 

Inicialmente, a política de viagens da Netflix se resumia em: “Gaste o dinheiro da empresa como fosse o seu”

O problema, que isto gerava divergências, pois é muito particular como cada um gasta seu dinheiro, tem pessoas que gostam de gastar 100% do salário e possuem gastos altos (com excentricidades), e outras pessoas são comedidas e extremamente econômicas.

Como afirma Hastings:

“…Vimos depressa que gastar o dinheiro da empresa como se fosse o seu não era exatamente
como queríamos que nossos funcionários se portassem. Um de nossos vice-presidentes, um sujeito chamado Lars, que ganhava um salário significativo, costumava brincar dizendo que, como amava itens de luxo, vivia de salário em salário. O custo desse estilo de vida não era o que estávamos procurando.  Então, alteramos as diretrizes de gastos e viagens para algo ainda mais simples.

E neste contexto que a política de viagens da Netflix, em todo o mundo se resume a “Atue em prol da Netflix”.

É uma forma da empresa confirmar que confia no bom senso do colaborador, e que ele deve pautar todas as decisões de gastos em prol do benefício da Netflix e não em nenhum benefício próprio.

Custo da conta da burocracia

Um dos grande benefícios de uma política tão simples é a redução do overhead dos controles, algumas empresas focam tanto em criar controles, que chegam a a criar regras absurdas, e ao invés do colaborador se preocupar em trabalhar e produzir valor para o cliente, ele está ocupado em atender as regras de controle e burocracia da empresa.

Tive uma experiência em uma empresa, que dado alguns excessos de poucos colaboradores, a empresa colocou uma regra onde cada colaborador poderia ficar apenas 10minutos no café, e qualquer desvio, o gestor seria punido, pois não controlou corretamente.

Logo, o gestor dedicava boa parte do tempo para controlar o rodízio dos colaboradores e o tempo que eles gastavam no café.

Bom, mais uma vez, desnecessário dizer que gestores pediram demissão, pois ninguém estuda a vida toda e entra em uma empresa para ficar controlando tempo de café de funcionário 😉

É o antagonismo do “propósito”, veja…

Empresa com propósito claro gera tesão nos colaboradores, eles trabalham com entusiasmo e se dedicam com afinco em cumprir a jornada de trabalho.

Ao passo que uma empresa com excesso de burocracia brocha os colaboradores e cria um terreno fértil para mediocridade, onde o maior objetivo do funcionário é chegar logo o final do expediente e carimbar sua folha de ponto.

E lembre-se!

Nenhuma empresa vai longe com mediocridade, sobretudo em mercados abertos e cada vez mais competitivos.

As grandes empresas precisam colocar na conta o tempo gasto pelos colaboradores para  ficar controlando e parando para cumprir rotinas de  alçadas de aprovação, sem nenhuma geração de valor no processo.

Hastings é bem claro em relação a isto:

“Mesmo que seus funcionários gastem um pouco mais quando você lhes der liberdade, o custo não será tào alto quanto o de um ambiente de trabalho em que eles não possam voar…”

Ainda segundo Hastings:

“Ausência de processos acelera tudo…”.

Não é à toa que a Netflix multiplicou o seu valor de mercado em mais de 500X desde a abertura do seu IPO em 2002 😉

Liberdade com responsabilidade e confiança

 

A cultura da Netflix é baseada em muita liberdade, com responsabilidade e confiança, todos os seus milhares de colaboradores em todo mundo sabem exatamente o que a empresa espera e como devem tomar decisões.

Tem uma parte do livro muito interessante que reforça esta cultura.

“Com uma força de trabalho composta quase exclusivamente por profissionais com alto desempenho, você poderá esperar que as pessoas se comportem com responsabilidade. A partir do momento em que se estabelece uma cultura de sinceridade, os funcionários passam a cuidar uns dos outros e tentam garantir que as ações de seus colegas de equipe estejam alinhadas com o interesse da empresa. Com isso, você pode começar a eliminar os controles e dar mais liberdade à sua equipe. Os melhores lugares por onde começar são a eliminação das políticas de férias, viagens e despesas. Esses elementos dão às pessoas maior controle sobre as próprias vidas e transmitem com clareza a mensagem de que você confia que seus funcionários farão o que é certo. Por sua vez, a confiança que você oferece incutirá um sentimento de responsabilidade em sua força de trabalho, levando todos na empresa a terem mais senso de propriedade.”

 

Na Netflix os colaboradores não precisam pedir alçada de aprovação de ninguém para realizar nenhuma compra, mas isto não significa que não há ninguém olhando.

A área financeira da empresa envia relatórios mensais para os gestores com os gastos dos seus colaboradores, para realizar os respectivos acompanhamentos.

Há ainda uma segunda via, onde o gestor opta por nem receber o relatório, ou seja, confia cegamente nos gastos dos seus colaboradores.

Neste segundo cenário, apenas a área financeira da Netflix audita os gastos.

O que fazer com as fraudes?

O modelo de liberdade com responsabilidade da Netflix é muito rígido com fraudes, qualquer desvio ou conduta incompatível com os valores da empresa, resulta em uma generosa demissão.

Isto é uma lição valiosa, existem empresas, que ao encontrar fraudes, aperta ainda mais os controles, criando mecanismos sofisticados e caros de controle, quando deveria apenas pegar o colaborador que cometeu a fraude e desligá-lo.

Ou seja, ao invés de punir todos os funcionários da empresa e a própria corporação, ela deveria apenas corrigir e eliminar o funcionário que teve o desvio de conduta.

Em casos de negócios escusos, não tem advertência, é demissão direta: “abuse de sua liberdade e será demitido” . 

E claro, o funcionário desligado fica como exemplo para todos os outros colaboradores entenderem o quão grave é ter condutas irregulares.

“Este é o ponto principal da Liberdade com Responsabilidade. Se o funcionário optar por abusar da liberdade que você lhe concedeu, você precisa demití-lo, e de forma explícita, para que os outros entendam as implicações. Sem isto, a liberdade não funciona”

Conclusão

Algumas pessoas confundem liberdade, autonomia e empoderamento com desorganização e falta de gestão. Na Netflix, a empresa sabe exatamente para onde estão indo os gastos, quem gasta, e para qual propósito, a diferença que a empresa faz esta análise “pós-gasto”, de uma forma muito mais inteligente, que demonstra confiança no seu colaborador, e não cria mirabolantes regras de controle e alçadas de aprovação, onde o colaborador parece que está cometendo um crime ao pedir um reembolso e solicitar aprovação de uma despesa.

Tem corporações que tem vários mecanismos de controle, mas não sabe para onde o dinheiro está indo e nem como está sendo gasto, se preocupa tanto em prever a saída do dinheiro que depois que ele sai não consegue rastreá-lo e tomar nenhuma decisão, uma completa desorganização na gestão.

A política de viagens da Netflix é uma pequena fração de como funciona sua cultura e como empoderam os seus colaboradores.

Vale a pena ler o livro e entender toda jornada da cultura da Netflix, contada pelo seu fundador e CEO.

E para saber mais sobre a Gestão de Viagens Corporativas, confira o nosso guia completo sobre o assunto!

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Marcelo Linhares
Marcelo Linhares é um dos fundadores da Onfly, possui mais de 10 anos de experiência em marketing digital e varejo omnichannel, nos últimos 2 anos estudou o mercado de viagens e percebeu que as agências tradicionais trabalhavam da mesma forma há 20 anos, e resolveu criar a Onfly para transformar este mercado. Ele está sempre disponível no e-mail marcelo@onfly.com.br

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