A CVC não vai entrar em recuperação judicial, mas os números dela dizem muito sobre o futuro do setor!

A CVC não vai pedir recuperação judicial, mas os números da companhia dizem muito sobre para onde o setor está apontando. Veja neste artigo uma análise dos últimos números da companhia, confrontando com algumas mudanças de comportamento no setor de turismo

22 minutos de leitura

Antes de começar o texto, cabe uma explicação sobre o título, é uma breve resposta para pessoas que estão buscando por “cvc recuperação judicial”, conforme identificamos nos nossos relatórios do Google Search e identificado no print abaixo.

Para a busca acima, o post que falamos como o mercado de turismo perdeu R$ 38B em apenas 22 dias aparece na primeira posição.

Então se você chegou aqui de pára-quedas pelo Google e está querendo saber se a CVC pediu recuperação judicial, a resposta é não, pode ficar tranquilo, comprar seu pacote e viajar feliz  😉

A propósito, de todas as empresas de turismo, eu arrisco dizer que a CVC e a Decolar possuem melhor estrutura de capital, melhor caixa, e mais capacidade de captar dinheiro barato (A Decolar recentemente levantou U$ 200M), portanto,  as marcas mais “seguras” em honrar compromissos futuros.

A resposta sobre a pergunta do Google já está dada, mas se quiser entender um pouco mais sobre o setor, os números da CVC e ler devaneios sobre o futuro deste mercado, continue a ler o texto!

Primeiro, um pouco sobre o tamanho da CVC

Para entender o gigantismo da CVC, maior empresa de turismo do Brasil e segunda da América Latina (a Decolar.com ganha por pouca diferença) vamos dividir alguns números, do 4T de 2019, retirados diretamente do portal de RI da CVC.

  • 1425 lojas exclusivas;
  • 66 lojas Experimento (Intercâmbio);
  • R$ 15,4B em reservas confirmadas;
  • R$ 1,4B de Receita líquida;

Para se ter uma ideia a receita com passageiro da Azul em 2019 foi de R$ 10.9B, o volume financeiro transacionado pela CVC foi 50% mais que todo o volume movimentado pela Azul no ano .

Do total de R$ 15,4B em volume transacionado pela CVC, aproximadamente 50% é B2C (Business to Consumer), venda para consumidor final, e 50% B2B (Business to Business), venda para empresas, em sua grande maioria agência de viagens:

Lembrando, que a gigante de turismo também tem forte relevância na Argentina, após a compra da Almundo ano passado.

 

Marcas

Em seu portfólio de marcas, a CVC conta com mais de dez marcas no total, no online o destaque é para a Submarino Viagens, e no B2B a Rextur Advance é a principaal marca com mais de R$ 4,3B em reservas confirmadas no mercado de consolidação (veja aqui quem é quem deste setor e entenda o que é consolidação).

Estrutura de capital

A CVC abriu capital em 2013, mas possui 86% das ações no “free float”, até alguns meses atrás era considerada uma “corporation”, companhia onde não há nenhum acionista controlador, com mais de 10% das ações da empresa.

Mas em maio deste ano, no meio da pandedmia,  a Opportunity aumentou sua participação na empresa e possui agora 13% das ações da companhia, e certamente vai ter forte influência na gestão com dois conselheiros no board.

 

Queda das ações e série de eventos negativos

A CVC abriu capital em dezembro de 2013, com as ações negociadas a R$ 15,50, e hoje, após quase 7 anos, a ação está negociada em R$ 14,46, mas a pouco menos de 2 anos, a ação chegou na sua máxima histórica de R$ 64,80.

Em resumo, se você investiu R$ 100mil na CVC no seu IPO, foi viajar o mundo, e voltou 7 anos depois acreditando que o investimento tinha valorizado, tomou um susto com apenas R$ 93mil disponível.

Para fins de comparação, de uma forma bem enviesada,  se tivesse feito o mesmo investimento na Magazine Luiza no mesmo período, hoje você teria R$ 9milhões na conta 😉

Veja a oscilação do papel:

Queda das ações e histórico de urucubaca

Agora, há algumas explicações para a queda histórica da CVC, a primeira, é externa, uma verdadeira urucubaca reinou sobre a companhia, com vários eventos que influenciaram diretamente a rentabilidade da empresa.

1 – Quebra da avianca

A quebra da Avianca acertou em cheio a CVC, nos dois primeiros trimestres de 2019 a companhia reportou perdas acumuladas de R$ 92milhões, e no terceiro trimestre de 2019 ainda provisionaram mais R$ 45 milhões.

2 – Alta do dólar

A quebra da Avianca e a alta do dólar jogaram os valores das passagens aéreas para as alturas, isto fez com que a demanda de viagem a lazer reduzisse drasticamente, impactando diretamente a demanda da CVC.

3 – Mancha de óleo no nordeste

Não bastasse quebra da Avianca e alta histórica do dólar, ainda teve a famigerada mancha de óleo nas praias do nordeste no final do ano passado, que impactou fortemente o turismo na região.

4 – Covid-19

Desnecessário falar sobre a Covid-19 e seus impactos no setor, já falamos sobre isto, bem no meio da pandemia, fato que no início de março quando a Covid já estava bem avançado em outros países do mundo, o papel da CVC estava em R$ 28,00, e no auge da Covid-19 no Brasil, no dia 18 de março ela bateu R$ 6,49 e agora está “estável” em R$ 14,46 (pode ser que quando você leia este texto os papéis já tenham oscilado).

A verdade é que o acionista da CVC que segurou os papéis da companhia durante a Covid-19, passou por um grande teste cardíaco.

Problemas internos, fraude contábil e questão de governança

A segunda explicação para a queda das ações da CVC, não bastasse a má sorte de eventos externos, veio de dentro da  própria companhia.

Após fato relevante em março, a empresa publicou o balanço do quarto trimestre de 2019 com quase 7 meses de atraso, corrigido com erros contábeis na ordem de R$ 362milhões, nos anos de 2015 a 2019, e deixou claro que houve indícios de fraude.

Ou seja, na linha tênue entre erro e má-fé, a má-fé prevaleceu, e isto criou um problema sério de governança e desconfiança entre os atuais e antigos acionistas.

Ainda sobre problemas da organização, há um outro ponto bastante espinhoso, os antigos salários de “management” da CVC.

Por questões de transparência, em 2018 a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) conseguiu derrubar uma liminar que proibia a divulgação dos salários dos executivos das empresas de capital aberto.

E pasmém, o “management” da CVC (leia-se diretores estatutários e conselheiros de administração) possuia o segundo maior salário de todas as empresas de capital aberto do Brasil.

Para se ter ideia do tamanho da distorção, os executivos da CVC ganharam R$ 32M em 2017, enquanto o terceiro colocado, executivos do Santander, um dos maiores bancos do Brasil foi de R$ 29 milhões, no mesmo período o lucro do Santander foi de R$ 9B, enquanto o lucro da CVC foi de R$ 250M.

A questão é de certo modo delicado, até podemos acreditar que os executivos mereciam esta remuneração, mas o fato que o negócio de turismo, com margens baixas, não permitia tais salários, e hoje, alguns anos depois, ainda ficou comprovado que boa parte desta remuneração era proveniente de bônus de lucros que não existiram.

Assunto espinho, complicado, e não pretendo me alongar mais sobre ele.

Dúvidas sobre continuidadade da companhia

Recentemente após reportar um prejuízo de R$ 1,15B no primeiro trimestre de 2020, boa parte deste resultado impactado por ítens não recorrentes, retirado este ítem, o prejuízo seria de “apenas” R$ 30,2M, conforme observado nas demonstrações:

O resultado da Companhia foi fortemente impactado por itens não recorrentes que, juntos, somaram R$620,3 milhões. Ajustado por esses efeitos e pela provisão para perda de créditos fiscais diferidos no montante de R$278,2 milhões, o resultado do 1T20 seria um prejuízo de R$30,2 milhões. 

 Mas o ponto que mais chamou a atenção dos analistas que leram as demonstrações foi a nota da KPMG sobre incerteza a continuidade operacional da companhia, conforme pode ser lido diretamente nas demonstrações apresentadas pela companhia:

Nota-se que boa parte da “desconfiança” está pelo fato da companhia ter um passivo circulante maior que o ativo circulante em quase R$ 203M (na controlada), isto deixa a entender que a empresa   possui obrigações (dívidas) de curto prazo maiores do que ela possui em caixa ou que tem a receber.

E como a empresa tem um “rating” de crédito prejudicado, ela teria problemas em captar dinheiro para honrar estas obrigações.

Mas a empresa fez uma subscrição de R$ 301milhões, indo diretamente para o caixa, e um adiantamento de recebíveis no valor de R$ 440milhões, segundo a própria companhia ela está com um caixa e equivalente de caixa de R$ 1,5B, para uma dívida de curto prazo de R$ 600milhões, que vence agora em novembro e uma dívida total de R$ 2B de longo prazo.

Uma dívida administrável portanto, sobretudo considerando que a companhia já retornou agora em setembro em 35% o volume de vendas.

Bebendo direto da fonte, seguem as palavras da própria CVC, sobre sua saúde financeira.

A Companhia tem implementado com sucesso as ações de redução de custos, buscas de eficiência operacional e de proteção de caixa. Vale ressaltar, ainda, que a maior parcela do endividamento da Companhia tem vencimento a médio e longo prazo. De um endividamento total na ordem de R$2,0 bilhão, temos R$600 milhões vencendo em novembro de 2020 e a Companhia está avaliando alternativas de captação e/ou rolagem com os investidores / credores. O saldo de caixa e equivalentes de caixa em 22 de setembro de 2020 era de aproximadamente R$1.526 milhões (um bilhão, quinhentos e vinte e seis milhões de reais) (informações não auditadas). A Companhia manterá o mercado informado a respeito de outras medidas eventualmente adotadas para preservar sua posição de caixa.

 

Um pouco sobre o futuro do setor: Take rate e vendas na loja física diminuindo

Eu sempre vejo os números da CVC como uma grande bússula para onde o mercado de turismo está indo, e aqui, dois pontos merecem ser destacados:

SSS caindo

SSS é a sigla para “Same-Store-Sales”, indicador que significa variação de vendas na mesma loja no mesmo período do ano anterior, e a última vez que a CVC apresentou este número em seu balanço foi no terceiro trimestre de 2019 com queda de 6,4% (no quarto e no primeiro trimestre de 2020, não sei por quê não apresentaram).

A queda das vendas nas lojas exclusivas e a queda de 6,4% no SSS no trimestre estão relacionados ao ambiente econômico e à redução de oferta no mercado aéreo doméstico e seu consequente impacto em preços de passagens, conforme já detalhado anteriormente. Nos 9 primeiros meses de 2019 o crescimento das lojas exclusivas foi de cerca de 2%.

Bom, se você não ficou escondido em uma caverna nos últimos 20 anos, e possui um celular no bolso, sabe que os hábitos dos consumidores estão mudando, e os hábitos “digitais” da nova geração é um caminho sem volta, logo, isto é um indício forte que a CVC precisa, pelo menos, repensar ao modelo das suas 1400 lojas, aquele modelinho de loja com banner de promoção para Porto Seguro por R$ 699,99 em 10x precisa ser repensado.

Não é segredo que hoje o consumidor é omnichannel, e é muito provável que ao entrar em uma loja da CVC em algum lugar, ele já tenha lido sobre o destino em vários blogs na internet, tenha sido impactado por diversos anúncios do Google e do Facebook, assistido um stories no Instagram ou até mesmo recebido um e-mail marketing de alguém,  portanto, muitas vezes o cliente chega na loja munido de mais informações que o próprio “consultor” da loja, isto está acontecendo em todas as verticais do varejo, eletro, moda, saúde, alimentação, e é miopia acreditarmos que no turismo isto não acontece.

Decerto que os pontos físicos representam uma vantagem competitiva enorme em relação aos concorrentes (Magazine Luiza que o diga, na briga pela liderança do varejo), mas entregar uma “experiência” dentro da loja será um grande desafio para o modelo de negócio da CVC, aquele tipo de loja que deu certo nos últimos 20 anos, não é o modelo de loja que vai funcionar nos próximos 10 anos.

 

Verticalização da cadeia e Take Rate diminuindo

Primeiro, é preciso entender como que funciona o modelo de receita da CVC e da maioria das empresas de turismo, ela é baseada em um indicador chamado de “take rate”, que é o percentual de receita que a empresa fica, de todo o valor transacionado.

Por exemplo, no quarto trimestre de 2019 o take rate da CVC foi de 8,1%, no quarto trimestre de 2018 o take rate foi de 9,9% e há 7 anos atrás, no quarto trimestre de 2013 o take rate foi de 15%.

Ou seja, se em 2013 a empresa fizesse R$ 1B de valor transacionado ela teria uma receita de R$ 150milhões, e hoje, com o mesmo R$ 1B, a receita é de “apenas”  R$ 81milhões, um pouco mais que a metade.

No primeiro trimestre de 2020, a CVC teve o menor take rate de sua história, de 7,6%.

Na prática, isto quer dizer, que para ter a mesma receita que ela teve no quarto trimestre de 2013, hoje a empresa tem que vender o dobro, portanto assumir muito mais riscos, e ter mais despesas operacionais e de marketing.

Esta diminuição do take rate acontece essencialmente por dois fatores:

O primeiro, o protagonismo do modelo B2B

O primeiro fator, pelo protagonismo do modelo B2B, com as marcas Rextur Advance, Esferatur e Trend, que possui menores margens pois a agência na ponta ainda precisa colocar o markup dela para vender para o consumidor/empresa final:

É mais ou menos como um “atacadista”, seja de hotel, aéreos ou até mesmo pacotes, veja:

A CVC “compra” o hotel por R$ 90,00 → Vende pra agência por R$ 100 → Agência vende para o cliente por R$ R$ 110;

Embora seja divulgado como B2B, na verdade o modelo da CVC é B2b2C, e B2B2B, pois ela vende para outras agências revenderem, ela não vende por exemplo, para empresas finais, como Vale ou Petrobrás.

Isto, pela própria natureza do modelo, joga a margem para baixo, lembrando que neste tipo de transação, além da CVC outro agente intermedia a transação.

 

Segundo, a verticalização da cadeia

Embora atualmente mais da metade das vendas das companhias aéreas ainda aconteça pelo canal de agenciamento, através de agentes de viagens, consolidadoras e TMCs, há um claro esforço destas companhias em fortalecer seus próprios canais, fazendo a venda direta para os clientes e desintermediando a cadeia.

Além das companhias aéreas, as redes hoteleiras nunca investiram tanto em plataformas de CRM e em canais próprios para venda direta.

Em jogo, não está apenas a vantagem de reduzir custos, mas  uma obsessão enorme em conhecer e se relacionar com o cliente na ponta.

Accor, Atlântica, OYO e Intercity, são alguns exemplos de redes que tem investido forte em verticalização, com programas de fidelidade para hóspedes recorrentes e plataformas de CRM de ponta para se relacionar com os clientes.

Verticalização da cadeia é uma tendência forte, que pode impactar diretamente o modelo de negócios da CVC, se antes o hotel não tinha capacidade de venda e dependia 100% de distribuição de terceiros, em especial da CVC, hoje ele conta com uma tecnologia de reserva online, um time de marketing digital para fazer captação de tráfego e uma plataforma de CRM para se relacionar com o hóspede no futuro (contei recentemente sobre a dificuldade do setor hoteleiro).

 

Problema de inadimplência, crédito no setor começa a ser um problema

Uma das maiores vantagens do modelo da CVC é ser essencialmente “asset light”, ou seja, não tem um elevado número de ativos para cuidar e dar manutenção, pensa por exemplo no esforço hérculeo de uma Azul em manter todas as suas aeronaves operando, ou da rede Marriot em manter todos os imóveis em bom estado para os hóspedes.

A CVC consegue escalar bem receita, sem fazer nenhum grande investimento em ativo, por outro lado, existe um grande risco neste modelo, e em tempos de Covid-19 este risco ficou completamente exposto, que é a inadimplência.

Explicamos acima sobre take rate, que a empresa fica com uma pequena margem de tudo que transaciona, mas o risco, infelizmente  é sobre todo volume transacionado.

A empresa apontou uma inadimplência de R$ 72milhões, com baixa chance de recuperação, com um take rate de 7,6%, a empresa precisa de r$ 960milhões em reserva para recuperar esta receita de R$ 72milhões perdida com inadimplência.

Bem cruel este modelo, mas nada diferente do modelo de marketplace tradicional, de grandes e-commerces como B2W e Amazon, é do jogo!

Analisar bem crédito acaba sendo uma competência “core” pra companhia, isto explica por exemplo, porquê a Decolar pagou R$ 20M pela Koin em julho .

 

Os desafios de Transformação Digital do grupo

Assim como a maioria das empresas, o maior desafio hoje da CVC está na transformação digital do grupo, uma trajetória que começou com a antiga gestão, conforme pode ser vista no relatório do terceiro trimestre de 2019:

Dando continuidade ao ciclo de transformação digital iniciado em 2018, seguimos com a implementação do novo banco de dados junto com AWS e das novas plataformas da Submarino Viagens, que incluem o lançamento da funcionalidade de hotéis e aéreo para o web mobile iOS e Android e já em finalização nas versões APP.

E continua com a gestão atual, sob o comando do novo CEO, Leonel de Andrade, conforme reporte aos investidores e em várias entrevistas nos últimos meses.

Em um cenário de margens comprovadamente menores, ter um backoffice mais eficiente, mais automatizado e “low-touch” é sem dúvida o melhor caminho. Ainda sobre a  transformação digital do grupo, elenco outros desafios:

  • Ter pontos de venda com foco em experiência e menos em transacional;
  • Entender a jornada “omnichannel” do cliente, em um modelo onde o franqueado na ponta é remunerado;
  • Ter mais inteligência e ativos digitais que influenciem  na tomada de decisão do cliente e o ajude em toda sua jornada;

 

Oportunidades “na mesa” pra CVC

Com tantos ativos de tecnologia, acordos excepcionais com a cadeia de fornecedores e excelente relacionamento com o “trade”, a CVC pode desenvolver novos modelos de negócios que podem contribuir para o aumento do bottom-line da companhia.

Observando algumas tendências do setor, especularia alguns modelos de negócios que a CVC poderia desenvolver, que eventualmente se transformaria em futuros unicórnios (é tão simples falar do negócio dos outros, rs… ):

 

Modelo “OYO Like”

A CVC é o player que tem maior capacidade de desenvolver um modelo de negócios semelhante ao OYO, startup indiana de hotel, que já possui a segunda maior oferta de quartos, com pouquíssimos ativos de real-state.

No Brasil, pela alta pulverização da cadeia hoteleira, a CVC conseguiria desenvolver um modelo oferecendo crédito, software, inteligência e cuidando da distribuição e capturando boa parte da receita adicionada aos hotéis.

Por enquanto, quem está buscando fazer isto aqui no Brasil é a Voa Hotéis,  mas é um mercado tão grande que cabe ai mais uns 3 ou 4 competidores com esta proposta de valor.

 

Consolidar o mercado de educação e intercâmbio

O mercado de intercâmbio possui margens altíssimas, mais que o dobro das margens do B2B, e é um mercado avaliado em R$ 6BI,  a CVC possui um braço neste mercado, através da Experimento, mas está muito longe de ser líder. Existe uma oportunidade de ganho de market share pela própria marca atual ou através de M&A.

 

Uma fintech para o setor

A cadeia de pagamentos de fornecedores de turismo é absurdamente ineficiente, eu gosto de dizer que o mercado financeiro no Brasil é tão concentrado, que cabem tranquilamente cinquenta “fintechs” unicórnios, gerando receita e remunerando bem os acionistas.

Se a CVC conseguir desenvolver um modelo de cartão, para pagar toda a cadeia, usando tecnologias atuais como VCN, e transacionar aproximadamente R$ 20B (o valor dela e de outros agentes), e ficasse com a taxa de interchange  e serviços financeiros de crédito, poderia adicionar mais uns R$ 300M de receita para a companhia, com a vantagem de ter um grande conhecimento da cadeia e saber o parceiro que “merece crédito”, algo semelhante ao que o Ifood está fazendo com os restaurantes.

Para fins de comparação, a WEX que é especialista em crédito para o setor de travel, tem um valor de mercado de U$ 6B na bolsa de Nova York.

Bom, tem coisas que são extremamente simples colocar em um texto do blog, mas altamente complexas em executar, pagamentos é uma delas 😉

 

Ser a plataforma para futuras travel techs

A CVC, através da sua tecnologia e know-how de distribuição tem condição de ser a “plataforma” para que futuros negócios digitais de turismo aconteçam, empresas como Rappi e Inter já estão transacionando produtos de turismo dentro da plataforma, em breve outros SuperApps entrarão na corrida também.

A CVC tem condições de ser a plataforma de apoio para todos estes novos modelos de negócios digitais no setor que estão surgindo, e que não querem a complexidade de integrar direto com as aéreas, hotéis e locadoras.

 

Ser relevante no B2B

Como citado acima, hoje a CVC é líder de mercado B2B2C e B2B2B, mas ela não vende direto para empresa final, Vale, Petrobrás e Ambev não são clientes da CVC e tampouco poderiam, pois a CVC não tem nenhuma vertical que atenda este setor “corporativo” diretamente (atende indiretamente, com magens bem menores).

Tem na mesa ai um mercado de R$ 75B em 2019, segundo a Alagev.

Liderar o mercado online

A Decolar faz aproximadamente de R$ 7b a R$ 9B no Brasil em 2019,  no primeiro trimestre de 2020 reportou um take rate de 9,6%, bem maior que os 7,6% reportados pela CVC.

Embora possua o ativo da Submarino Viagens como sua OTA, a CVC ainda não é líder neste mercado, e conhecidamente está muito longe da Decolar e do Booking.

A curiosidade aqui é que o mercado online historicamente sempre foi conhecido como um mercado de “margens baixas”, e apontado frequentemente como algo ruim, mas estas margens podem representar o novo “padrão” do setor.

Em resumo, a época de margens altas no turismo, com incentivos enormes das cias. aéreas e dos hotéis, infelizmente acabou.

 

Investir em Mobilidade

O laboratório de inovação da Lufthansa, companhia aérea alemã, coloca no mesmo lado o mercado de turismo e de mobilidade, através do seu portal intitulado travelandmobility.tech, a junção faz absoluto sentido, sobretudo se olharmos a jornada do viajante, seja ele  lazer ou corporativo, que em vários momentos utiliza carros, bicicleta e até mesmo patinetes para se deslocar entre os seus destinos.

Isto posto, modelos de negócio de mobilidade, como Uber, 99, Wappa ou até mesmo locação de veículos pode ter muita sinergia com a CVC.

Segundo a própria CVC, locação de automóvel representou 15% do seu volume de vendas em setembro deste ano,  se olharmos os números da Movida, empresa de locação de veículos e de capital aberto na B3, em 2019, a empresa teve R$ 4B de receita e lucro líquido de R$ 228M, margens bem maiores portanto que da CVC.

O mercado de mobilidade está sendo completamente transformado, é um mercado gigante e de margens altas, Localiza (R$ 37bi), Movida (R$ 5.4bi) e Locamérica (R$ 10.8bi) são empresas de capital aberto no Brasil que somadas ultrapassam R$ 50bi em valor de mercado, e que nos últimos 12 meses entregaram mais de R$ 1bi de lucro líquido para os seus acionistas.

Recentemente o setor ganhou concorrentes de peso, insurgentes como como a  @KoviTurbi e agora a Vaicar, que recentemente anunciou um aporte gigante de R$ 380milhões.

Há alguns meses a gigante alemâ Volkswagen, anunciou a compra de uma startup de viagens corporativas, de olho no mercado de serviços para empresas, pelo menos na Alemanha, montadoras de carro já competem com empresas de turismo.

Não que faça sentido a CVC montar uma montadora de carro, mas investir no mercado de mobilidade, mesmo que seja em um modelo “asset light”, intensivo em tecnologia, e aproveitando toda sua força de venda, faz bastante sentido,  e pode gerar bastante valor aos acionistas no longo prazo.

Conclusão

A CVC está capitalizada, vai passar bem por esta crise, ao contrário de inúmeras outras empresas do setor que não possuem a mesma estrutura de capital e têm pouco acesso a crédito.

A Covid vai passar, o mercado de turismo vai voltar, mas o fato é que os hábitos dos consumidores estão mudando, e a dinâmica do mercado também está alterando, a internet naturalmente aumenta a concorrência e reduz margens,  do outro lado temos fornecedores tentando verticalizar a distribuição. Existe um enorme esforço do setor em lutar contra este movimento, mas é um caminho sem volta (cheguei a ler uma reportagem de uma pessoa do setor falando que após covid, a aceleração digital no setor seria interrompida, visto que agora, as pessoas mais do que nunca valorizariam o contato humano, uma tremenda bobagem).

A CVC sabe disto como ninguém, a capacidade de executar sua transformação digital, é que fará com que a empresa continue relevante para clientes e acionistas nos próximos 20 anos, e que não vire uma Thomas Cook, tradicional empresa de turismo da Inglaterra que pediu falência, com mais de 150 anos de tradição.

Aos talentosos executivos e colaboradores da empresa, boa sorte!

 

Ps:. Aqui na Onfly, temos um carinho enorme pela companhia e pelos profissionais que vestem a camisa da CVC, ela é uma grande parceira (aqui chamamos fornecedores de parceiros, é como acreditamos que os negócios devem ser feitos) da empresa, apoiando a empresa na parte de tecnologia e distribuição.

Marcelo Linhares
Autor: Marcelo Linhares

Marcelo Linhares é um dos fundadores da Onfly, possui mais de 10 anos de experiência em marketing digital e varejo omnichannel, nos últimos 2 anos estudou o mercado de viagens e percebeu que as agências tradicionais trabalhavam da mesma forma há 20 anos, e resolveu criar a Onfly para transformar este mercado. Ele está sempre disponível no e-mail marcelo@onfly.com.br

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