Lições aprendidas com a falência da Thomas Cook – nenhum mercado respeita tradição, apenas inovação!

O que podemos aprender com a falência da Thomas Cook, e a importância da inovação para o mercado de turismo, principalmente neste momento de Covid-19 onde será necessário uma completa reinvenção do setor.

Já faz quase 1 ano,   exatamente no dia 23 de setembro de 2019, a Thomas Cook, agência de turismo mais antiga do Mundo, pediu falência, deixando 21mil funcionários em 16 países sem emprego.

Bom, esta definitivamente não dá para colocar na conta da Covid-19.

Entre as explicações, além de uma dívida de U$ 2,1bi e uma estúpida possível culpa do Brexit, é unânime que a empresa não soube se manter relevante na nova economia, em um cenário claro de mudança de comportamento do consumidor, sobretudo com o advento da internet e o crescimento das OTAs (Online Travel Agencys) no segmento.

Satya Nadella, brilhante CEO da Microsoft, falou uma frase brilhante, que de certo modo explica a miopia de muitas empresas tradicionais que insistem em acreditar que o simples fato de serem “antigas” seja o suficiente para continuarem relevante no novo cenário, segundo ele:

“Nossa indústria não respeita a tradição, só respeita a inovação”

 

No caso da Thomas Cook, o que não faltava era a tal “tradição”, a empresa foi fundada em 1841 e tinha 178 anos, e mesmo assim, virou pó.

Mas convenhamos…

Não é só a indústria de tecnologia e de turismo que não respeitam a tradição, o mercado como um todo, seja turismo, tecnologia, varejo, construção civil ou qualquer outro mercado dá uma grande banana para a tal tradição.

Oras, quando o cliente está em uma loja, ou quando o cliente está consumindo algum produto ou conteúdo digital da empresa, ele está pouco se importando do “tempo de vida” da empresa, ele quer ser bem atendido, ter uma boa experiência, pagando um preço justo por isto, e pronto.

A retórica é recorrente, por mais que a Thomas Cook tentasse justificar, colocando a culpa em uma crise ou eventual momento do Brexit na Europa, não é honesto culpar o cenário econômico externo, enquanto a Thomas Cook quebra e deixa mais de 600mil clientes “na rua”, a Expedia Group, dono de marcas como Trivago e Hotels.com, atingiu um dos seus maiores valores históricos em Nasdaq, com valor de mercado de U$ 20bi, com U$ 902mi de lucro reportado em 2018 (lembre-se, pré-Covid, ok?).

Recorrendo ao Wikipedia, a Expedia foi fundada em 1996, possui menos de 25 anos de vida, enquanto a agência tradicional Thomas Cook tinha mais de 150 anos.

Satya Nadella nunca foi tão assertivo com sua reflexão, dane-se a tradição.

Outra empresa do segmento, que não pára de crescer é o Booking, além do famoso buscador de hotéis, ele é dono da Kayak e da Priceline, e tem um valor de mercado de mais de U$ 65bi e entrou inclusive na Fortune500, ranking das maiores empresas de capital aberto dos USA em 2018.

Cadê a crise do setor alegado pela Thomas Cook? Cadê o impacto do Brexit no resultado destas empresas?

Eu passei os últimos 3 anos, estudando o varejo e vendo este mesmo movimento, participando em diversos eventos no Brasil, falando com centenas e milhares de empreendedores, dizendo que a transformação do varejo passa essencialmente em entender a nova jornada do consumidor, integrando canais em um modelo Omnichannel, e as empresas que não conseguirem entender isto fatalmente irão quebrar.

Não falo como alguém que leu isto em algum lugar e simplesmente espalha a informação, vivi isto de dentro, diretamente das trincheiras, liderando a área de digital de uma empresa que em 6 anos saiu de 25 lojas para mais de 130, e neste ínterim vi vários competidores “tradicionais” ficando no caminho (sim, é deselegante citá-las por aqui) porque não tinham sequer uma fanpage no Facebook e enxergavam o digital como um grande tabu.

Mas muitos empresários são teimosos, insistem em acreditar que a redução de receita dos seus negócios seja proveniente de uma pontual crise econômica e política, daí o cara reclama do Lula, da Dilma, do Temer e agora do Bolsonaro….

Até do Sarney já ouvi gente reclamando, coitado, deve estar se revirando no túmulo…

Para eles, eu sempre usei a mesma frase:

“Acesse o portal de relação com investidores da Renner e da Magazine Luiza e veja como eles cresceram, no mesmo cenário sócio-econômico que o seu”

Logo, não dá para culpar o mercado, quando o fracasso é reflexo de uma ineficiência da empresa, mas é como Cláudio Galezzi diz:

“O sucesso tem muitos pais, mas o fracasso é órfão”.

Ok, o Covid-19 está sendo um verdadeiro Cisne Negro, que está mudando toda a lógica do mercado de turismo e impactando todo mundo, das empresas mais tradicionais até as mais inovadoras, mas todo mundo sabe que vai passar, e quando passar esta pandemia, quais empresas vão estar preparadas para ser relevantes neste novo mercado?

Existem exemplos clássicos, de empresas que não souberam se adaptar e seguiram o mesmo caminho da “Thomas Cook”, mas calma, não vou resumir a batidos exemplos de Blockbuster e Kodak aqui, ok?

A Sears por exemplo, centenária empresa americana, que chegou a ser a maior empresa de varejo do mundo, entrou em bancarrota e hoje não vale R$ 40milhões.

A mesma coisa aconteceu com a Toys R UsJCPenney (está na pontinha dos dedos) e dezenas de outras empresas nos EUA e no Brasil (alô Mesbla, Saraiva e Livraria Cultura).

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Legenda imagem: ações da JCPenney em queda.

Mas olha, por outro lado, temos bons exemplos de empresas que souberam se reiventar.

Veja a Magazine Luiza por exemplo, ela sai de pouco mais de R$ 1BI de valor de mercado em 2014 para R$ 65bi em 2019, enquanto players do mesmo segmento e com mesmo valor em 2014, patinaram e estão em dificuldade até hoje.

Outra história que gosto de contar, e tive a oportunidade de viver de dentro também quando trabalhava como webmaster (bem meia-boca a propósito, mas sabia fazer hacks para IE.5.5 que esta geração nutella nunca saberá o que é) é a história do UOL.

Em 2006 o segmento de provedor de internet, que fornecia internet discada começou a derreter, e era a grande vaca leiteira do UOL em termos de receita.

O que o UOL fez?

Deu vários tiros, criando espécie de “clones” de empresas que existiam e faziam razoável sucesso em seus mercados:

  • Criou o UOLMais para concorrer com o Facebook/Youtube;
  • Criou o EmpregoCerto para concorrer com a Catho;
  • Criou o MetadeIdeal para concorrer com o ParPerfeito;
  • ShoppingUol para concorrer com o Buscapé;
  • Criou o TodaOferta para concorrer com o Mercado Livre;
  • Comprou a Plugin e vários outros pequenos provedores e criou o UOL Host, depois comprou a Diveo;
  • E para operacionalizar a segurança de pagamentos do promissor TodaOferta, comprou uma empresinha pequena de pagamentos, chamada BrPay, que depois se transformou no Pagseguro;

Bom, e foi justamente esta empresinha de pagamentos, que era certamente a com menor potencial de todos os outros produtos, que virou hoje o Pagseguro, uma empresa com valor de mercado de U$ 12bi, exatamente 12 unicórnios, para usar a linguagem da moda.

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Olhem que interessante…

O UOL é do Grupo Folha, uma empresa tradicional, há uns 20 anos duas empresas tinham quase o mesmo tamanho: Grupo Folha e Grupo Abril.

Inclusive chegaram a ser sócias na joint-venture UOL e BOL, enquanto o Grupo Folha mantém uma participação relevante no UOL e consequentemente no Pagseguro, o grupo Abril pediu recuperação judicial ano passado.

Duas empresas, com a mesma tradição, no mesmo mercado, que seguiram caminhos completamente distintos em apenas 20 anos.

Tudo que o UOL fez deu certo? Absolutamente não…

Pelo contrário, olhando o histórico, foi muito mais fracasso que sucesso, lembro que existiam produtos lá dentro que eram verdadeiras chacotas.

Mas apenas dois produtos, das dezenas que eles tentaram emplacar: PagSeguro e UOL Diveo, foram suficientes para garantir o sucesso e a perenidade da companhia, porquê se dependesse da simples “tradição” tinham virado pó, como quase todos os provedores de internet viraram (alô Starmedia).

Se puder olhar para trás, e explicar a razão da virada do UOL, eu diria que a principal catapulta da empresa foi entender e aceitar que o negócio dela estava morrendo, e que ela deveria diversificar, e sobretudo, que muitos dos produtos que ela iria criar iriam fracassar, como fracassou UOL Mais, MetadeIdeal e TodaOferta por exemplo, mas algum deles encaixaria e seria suficiente para garantir a continuação da companhia.

Os bancões de mercado no Brasil já entenderam isto, e estão reagindo e tentando ser relevantes em meio a tanta fintech batuta, como PicPay e Nubank, que nascem em um mercado sem legados, com taxa Selic a 4,5% e com uma cultura “customer centric”.

Poderia citar diversos outros exemplos, mas preciso concluir…

E a principal reflexão, é que as empresas que não souberem entender este novo cenário, fatalmente vão deixar de existir.

Chamem de reivenção, chamem de “transformação digital”, chamem do que quiser…

Mas por favor, não se apeguem a “tradição”…

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Marcelo Linhares
Marcelo Linhares é um dos fundadores da Onfly, possui mais de 10 anos de experiência em marketing digital e varejo omnichannel, nos últimos 2 anos estudou o mercado de viagens e percebeu que as agências tradicionais trabalhavam da mesma forma há 20 anos, e resolveu criar a Onfly para transformar este mercado. Ele está sempre disponível no e-mail marcelo@onfly.com.br

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