R$ 38 bilhões em apenas 22 dias: Entenda como o Covid-19 matou o turismo no Brasil

Os efeitos do Coronavírus (COVID-19), foram sentidos por todo o mundo com o estímulo de  ações como distanciamento social, e decretos governamentais para fechar parques, bares, boates  e shoppings em alguns estados, fica claro que haverá um desastre econômico e social no país. Como ficou o turismo brasileiro em meio a essa pandemia mundial? Confira essa análise feita pelo CEO da Onfly

Muitas pessoas estão preocupadas com o futuro da economia brasileira com o efeito do Coronavírus, com o estímulo de  ações como distanciamento social, e decretos governamentais para fechar parques, bares, boates  e shoppings em alguns estados, fica claro que haverá um desastre econômico e social no país.

Nossos filhos irão estudar este período da mesma forma como estudamos o crash de 29 e a gripe espanhola em 1918.

O que poucos talvez saibam, é que especificamente o setor de turismo, representado majoritariamente por companhias aéreas, hotéis e agências de viagens já sentem estes efeitos há pelo menos 20 dias.

Com a desaceleração de viagens e eventos e uma enorme falta de otimismo que as coisas melhorem no curto prazo,   as perdas em valor de mercado das três companhias aéreas brasileiras: Gol, Latam e Azul, da CVC (maior empresa de turismo do Brasil)  e da Decolar.com,  somados  já ultrapassam R$ 38bilhões em apenas, pasmém,  22 dias.

E olha que nem estou colocando na conta empresas de capital fechado como Passaredo, travel techs (como MaxMilhas,  Hurb, 123Milhas, Voopter, etc..), milhares de hotéis e agências de viagens grandes (como Flytour e Confiança) e pequenas do Brasil (aproximadamente 22mil agências, segundo a Sindetur-SP).

Vamos lá, entender o cenário das empresas:

Primeiro vamos entender,  por quê escolhemos um corte de 22 dias para análise. No dia 26/02 os EUA já começava ter os primeiros casos de Coronavírus,   já existiam 42 casos de pessoas infectadas confirmadas, embora o presidente Donald Trump insistisse que a vacina viria muito rápido e que o risco para os EUA era muito baixo.

Por aqui, no dia 26/02, em plena quarta-feira de cinzas,  tínhamos o primeiro caso de Coronavírus confirmado,  embora como sempre, nossa maior preocupação era saber qual seria a escola campeã do carnaval.

Portanto, a decisão de retroceder 22 dias encaixa exatamente com o primeiro caso de Covid-19 no Brasil.

Outra coisa importante, dado o nível de volatilidade das empresas e o grau de especulação, é possível que no momento que você esteja lendo este texto, estes números já estejam com alguma defasagem (veja bem, só ontem dia 18 de março as ações da LATAM caíram 47%).

As perdas de cada empresa:

LATAM

A companhia aérea LATAM tem capital aberto em Nova York, portanto suas cotações são em dólar, no dia 26/02 suas ações estavam cotadas em U$ 7,14, hoje, 19 de março, suas ações estão em U$ 1,76.

Perda acumulada: U$ 3,2bi;
Queda das ações no período: 75%

AZUL

A Azul tem capital aberto na B3, no dia 26/02 suas ações estavam cotadas há R$ 48.25, hoje estão cotadas a R$ 10,35

Perda acumulada: R$ 12,4bi (quase R$ 500milhões/dia);
Queda das ações no período: 78%

GOL

A Gol tem capital aberto na B3, no dia 26/02 suas ações estavam cotadas há R$ 28,98 hoje estão cotadas a R$ 5,60, entre todas as companhias analisadas a GOL teve a maior queda, 80% de perda de valor de mercado em apenas, repito, 22 dias.

Perda acumulada: R$ 6,38bi
Queda das ações no período: 80%

CVC

A CVC também tem capital aberto na B3, no dia 26/02 suas ações estavam cotadas há R$ 27,38 hoje estão cotadas a R$ 6,49, as perdas acumuladas da CVC já está em 76%.  É justo considerar também, que neste período a CVC identificou possíveis erros contábeis no balanço, sofreu com forte alta do dólar e que a empresa vinha sendo questionada por analistas pela falta de transparência com as perdas da Avianca, logo tem alguns outros fatores adicionais que influenciaram na  queda da CVC.

Perda acumulada: R$ 3,1bi
Queda das ações no período: 76%

Decolar.com

Embora com origem argentina, a Despegar.com possui grande parte do seu faturamento no Brasil e possui capital aberto em Nova York (um modelo muito semelhante ao Mercado Livre, em termos de origem x faturamento).

A empresa tem a menor queda entre as empresas analisadas do setor, de “apenas” 51%.

Em 26/02 suas ações estavam cotadas a U$ 12,87 e hoje a U$ 6,25

Perda acumulada: U$ 458mi
Queda das ações no período: 51,4%

Futuro do setor

Para as companhias aéreas

As companhias aéreas ganharam muito dinheiro com a saída da Avianca, com melhora na ocupação das aeronaves e aumento do preço das passagens aéreas.

A GOL reportou um lucro líquido de R$ 648milhões em 2019, a Azul registrou um lucro líquido de 1,2bi, e a Latam reportou lucro de U$ 190milhões.

Mesmo com aumento do dólar (boa parte dos custos de uma companhia aérea está em dólar), os números estavam indo bem, até a chegada do Coronavírus.

O governo já sinalizou que vai socorrer as companhias aéreas,  é muito triste pensar que vai ter dinheiro do contribuinte para resgatar empresas privadas, mesmo sabendo que elas tiveram lucros enormes nos últimos anos, e entendendo que epidemias e esvaziamento de demanda fazem parte do risco do negócio das companhias aéreas,  mas  da mesma forma como o governo americano socorreu empresas como GM e Chrysler em 2008, além de diversos bancos , vai ser necessário intervir e socorrer as cias. aéreas brasileiras,  em resumo: é muito ruim socorrer as companhias aéreas, isentando impostos, principalmente apertando no contribuinte, mas é um desastre muito maior se  elas quebrarem, toda logística aérea do país ficaria comprometida, impactando fortemente o futuro da nossa economia.

E que fique claro,  eu não sou um fã das companhias aéreas no Brasil (embora reconheça que tenha havido melhora nos últimos anos), pelo contrário, acredito inclusive, que seja oportunidade que os incentivos e subsídios venham acompanhado com algumas contrapartidas das companhias, principalmente para melhorar a vida dos consumidores.

Bem gerida ou não, se fizeram extravagâncias ou não, o certo é que as companhias aéreas vão ser socorridas neste pandemônio econômico causado pelo Coronavírus, o governo já sinalizou isto e está corretíssimo em fazer isto

Para a CVC

Muito provável que algumas pessoas conheçam a CVC apenas pelas lojas do shopping, e embora ela já tenha algo próximo de 1500 lojas espalhadas no Brasil, o grupo CVC CORP é muito “maior” que as suas lojas.

Entre as diversas marcas e empresas do grupo estão a Experimento (intercâmbio), Rextur Advance e Esferatur que somadas possuem um GMV aproximado de R$ 6bilhões/ano, Trend e Visual (operadoras), SubmarinoViagens (OTA) e  AllMundo. A empresa acumulou nos últimos 3 anos mais de R$ 1BI em aquisições e hoje é disparado o principal player do setor no Brasil.

Veja um pedaço do “ecossistema” da companhia.

Não sei como está o caixa da companhia, tampouco se existem planos do governo em uma possível ajuda para a empresa, fato que uma possível “recuperação judicial” da CVC geraria um efeito em cascata muito danoso para todo o setor, comprometendo dezenas de milhares de empreendedores e consumidores, gerando certamente milhares de desemprego no mercado em um espaço muito curto de tempo.

Para a rede hoteleira e agências

Conheço hotéis que estão com 3% da sua taxa de ocupação, em comparação a  uma média de 60% de períodos anteriores, e dezenas de agências já anunciaram demissões e a expectativa, infelizmente é que haja fechamento de hotéis e demissões em massa no setor, um verdadeiro banho de sangue, segundo a associação hoteleira “em um espaço curtíssimo de tempo, o setor de Turismo estará irremediavelmente comprometido, sob pena de suprimir da economia R$ 31,3 bilhões e 400 mil postos de trabalhos diretos” (fonte)

Só de viagens canceladas dos próximos 2 meses, a estimativa é que chegue em 85%.

Ah, que fique claro, que neste período de crise, a grande maioria dos hotéis, ao contrário de outros players do setor,  têm agido de uma forma transparente com os consumidores, facilitando os cancelamentos e reembolsos, sem a cobrança de multas, respeitando as recomendações do ministério da saúde para evitar a disseminação do vírus.

Conclusão

Nunca acreditei em medidas que privilegiassem setores A ou B, e sim que permitisse um ambiente equilibrado entre todos os agentes da economia, mas o Covid-19 desafiou toda lógica de mercado, um setor inteiro virou pó em apenas poucos dias, em uma situação jamais vista.

Um pacote de medidas para ajudar todo o setor de turismo, que repito, já vem sofrendo há mais de 20 dias, seja o hoteleiro, seja companhia aérea ou até mesmo agência de viagens, se faz necessário, para evitar um banho de sangue no mercado (milhões de desempregos diretos e indiretos e dezenas de pedidos de falências).

Ajudar apenas três companhias aéreas seria uma miopia e embora no curto prazo gerasse um conforto no mercado, no longo prazo criaria um desequílibrio aumentando a concentração no setor e criando barreiras para novos entrantes..

 

Update 1 19/03 12:33 –   Ministério do Turismo vai editar uma portaria para flexibilizar regras de empréstimos do Fungetur (Fundo Geral de Turismo).

Update 2 19/03 12:40 – Se você trabalha no setor de viagens corporativas, a Alagev está rodando uma pesquisa para entender o impacto do Covid-19 no setor.

Marcelo Linhares
Autor: Marcelo Linhares

Marcelo Linhares é um dos fundadores da Onfly, possui mais de 10 anos de experiência em marketing digital e varejo omnichannel, nos últimos 2 anos estudou o mercado de viagens e percebeu que as agências tradicionais trabalhavam da mesma forma há 20 anos, e resolveu criar a Onfly para transformar este mercado. Ele está sempre disponível no e-mail marcelo@onfly.com.br

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